terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Carta ao amigo

Querido;

Interessante como essa vida funciona em círculos e ciclos que nunca se completam mas que por vezes se complementam numa arte insensata do Criador.
Sei que possivelmente você só irá ler essas bobagens minhas depois que chegar em Recife, mas o fato é que estou com uma série de sentimentos abafados dentro de mim e sei que preciso bulinar meus sentidos para que eu possa desaguar toda essa angústia ao vento...
O poema... incrível! um nó na garganta e uma tentativa desesperada em engolir as lágrimas que estão querendo derramar agora...
Hoje foi o pior dia de toda minha história, talvez outros dias piores houveram, mas não quero pensar nisso.
Hoje, justamente hoje, vivo o presente, e está tão amargo...
Os círculos... você antes enfraquecido e eu com as minhas "bobagens cotidianas" te inspirando, hoje sou eu quem está precisando dessa inspiração, e olha só... um poema, assim de presente, incrivelmente lindo e capaz de traduzir um pouco a dor que agora estou sentindo.
Um poema que fala das borboletas... as mesmas que hoje mesmo eu feri.
Arrisquei alto e possivelmente não merecerei mais a companhia delas, as duas borboletas mais importantes da minha vida, hoje voaram para longe de mim e a causadora disso tudo sou eu.

O poema:
ouve
a pedra
o soco
das ondas
espoleta
na cara
a palavra
soca
a palavra-
caos
causa
efeito
borboleta
suas asas
abalam
o mundo

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

o dia em que o tempo parou

Hoje o tempo parou
e se tudo parasse com ele
para mim não faria a menor diferença
Hoje, justamente hoje
a razão não existe mais porquê
nem a emoção faz sentido sem ter
e aqui dentro um vazio imenso
cheio de gritos e ferimentos
sangrando, chorando e clamando aos céus
pedindo de esmola a glória de alguém que não triunfou
e o perdão de quem se magoou




"como feri e faz barulho
um bicho que se machucou viu"

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O amor e o tempo

Outro dia eu estava escutando atenciosamente uma das músicas que a minha mãe adora...
Estávamos escutando com a alma a "Resposta ao tempo" de Nana Caymmi.
A minha mãe repetia apaixonadamente estrofe por estrofe, como que para provar a todos e a si mesma que o amor sempre vence o tempo.
Cantava com fervor "no fundo é uma eterna criança/ que não soube amadurecer/ eu posso e ele não vai poder/ me esquecer"
E enfatizava "Camilla, entenda, o tempo não faz esquecer um grande amor, mas quando amamos esquecemos o tempo"
Para que eu não pudesse esquecer, repetiu isso diversas vezes, até que eu me convencesse da importância do amor, da importância de entregar-se, da importância de viver nossos sentimentos, independentemente do tempo.
Confesso que se tem uma coisa que eu admiro na minha mãe, é a capacidade de ser apaixonada pela vida, passional até o último fio dos seus cabelos ela vive, sofre e tira da essência da vida o amor que irá movê-la.
Acredito piamente nessa assertiva proferida pela minha querida mãe, mas o fato é que me incomoda essa desarmonia entre o tempo e o amor.
Na realidade, tenho reparado que o tempo tem um impressionante poder sobre mim...
Eu vivo em função dele e tenho percebido que quando não estou bem, várias mensagens me surgem acerca do tempo, sobre seus milagres, seus artifícios e seus poderes de curar feridas não curáveis.
Ainda ontem escutei: "Por que você quer trazer de volta um tempo que está tão longe?"
Além de muito poético, achei essa frase de uma profundeza absurda, parecia que a personagem da televisão estava falando diretamente para mim...
É fato que por vezes remexo o passado, como que para sanar as minhas feridas que virão no futuro, raras são as vezes que consigo me entregar ao presente.
Mas de todas as mensagens que me chegaram uma das que mais me chamou atenção foi uma de Shakespeare que concilia o tempo e o amor, assim que li remeti meus pensamentos aos ensinamentos da minha mãe e agora percebi o que ela queria me dizer...

“O tempo é muito lento para os que esperam
Muito rápido para os que tem medo
Muito longo para os que lamentam
Muito curto para os que festejam
Mas, para os que amam, o tempo é eterno.”
William Shakespeare

É isso! Obrigada Carmencita

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Ossos da responsabilidade

Na realidade tudo em mim está de mal a pior
Até os meus pensamentos estão sendo sucumbidos por essa enfermidade, que não sei se é física ou mental... só sei que está assim
Dia desses me perguntaram: "Mas o que é que você quer?"
Confesso que essa foi uma das perguntas mais difíceis que precisei responder
Lembrei das vezes que eu ficava horas diante das imensas questões de química que meu professor insistia em me passar, escondido pelo álibi: "eu sei que você é inteligente,Camilla, vamos lá, responda"
Eu sempre respondia errado, mas respondia...
Foi isso que fiz, respondi...errado mas respondi:
- O que quero? Ora! Não sei, pode ser?

Não! Respondeu a sociedade com olhos de repressão
Eu não tenho o direito de errar? de estar confusa? de estar enferma...
Quanta responsabilidade!
Como diria meu pai e meu amigo:
" Me arraste para uma irresponsabilidade sábia (sadia)"
Está ai, sábia ou sadia, são irresponsabilidades que quero ser arrastada, disso eu tenho certeza, bom começo!


"Por entre os dedos da minha mão
passaram certezas e dúvidas"

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

[...]

"pássaro novo
longe do ninho
sem forças pra voar"

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Ensinamentos

Desde muito cedo aprendi a sentir as músicas com a alma, fruto de uma característica que não sei se herdada ou se imitada do meu querido pai.
Lembro-me bem das vezes em que eu não encontrava sono entre os infinitos carneirinhos que eu contava e refugiava-me na sua companhia. Na realidade, não sei se por pura dificuldade de dormir ou se por estratégia em encontrar um momento em que eu pudesse senti-lo só para mim.
Ele, conivente com a minha insônia, sentava-me à sua bancada e entre os golpes de pincel e as tragadas no cigarro, o silêncio entre nós era embalado pelas músicas que variavam entre Bach, Vivald e Choppin. Lembro ainda que de todos eu preferia Vivaldi "é mais alegre painho!", hoje prefiro Bach.
Vez por outra eu pegava um papel e me punha a escrever atrevidamente quaisquer rimas que eu declamava ao final com fervor e empenho, lembro ainda que ele sempre achava genial, mesmo que os versos não fizessem sentido algum.
Dessas lembranças, uma das mais saborosas foi recentemente aguçada quando li no livro "Estuário" uma crônica do seu grande amigo Samaroni Lima, sob o título “Tocando em frente", uma das músicas preferidas do meu pai.
Lembro-me que eu a escutava repetidamente aos domingos, por uma imposição dele que me alertava da beleza da letra daquela música.
Enfatizava: "é preciso amor pra poder pulsar" e sempre fazia uma intercessão: "isso é lindo!"
Confesso que na época eu não entendia bem a beleza desses versos, talvez por não senti-la de fato ou porque minha tenra idade não me permitisse escutá-la com a alma.
Hoje entendo... E é tão bom saber que a vida pulsa motivada pelo amor!
As células dos nossos corpos estão pulsando deliberadamente e se pulsam há vida e se há vida há também amor, nossos corações quando embalados pelo amor pulsam com maior firmeza e rapidez e os corpos dos amantes pulsam num momento sublime de amor... Isso é vida e amor!
E assim, com este aprendizado sigo minha vida com amor e agradeço ao meu sábio, que dentre tantos ensinamentos ensinou-me a perceber o pulso da vida!




"ando devagar porque já tive pressa
e levo esse sorriso porque já chorei demais
hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
só levo a certeza de que muito pouco eu sei, que nada sei
conhecer as manhas e as manhãs
o sabor das massas e das maçãs
é preciso amor pra poder pulsar
é preciso paz pra poder sorrir
é preciso chuva para florir"

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Ruídos de um silêncio

Acontece que aqui dentro existe um silêncio absurdo
É um silêncio ensurdecedor
É a sombra suave do ritmo cansado,
É o pavor dos acordes descompassados,
É o desespero das expectativas que não se concretizarão
São estes, os barulhos ruidosos do meu silêncio
E tudo fica como está... inércia!


"como feri e faz barulho
o bicho que se machucou viu"