domingo, 16 de janeiro de 2011

a saga da mulher solteira - parte IV


Se tem uma coisa difícil de administrar na solteirice nossa de cada dia, seu João e dona Maria, é a danada da falta de intimidade. Adão e Eva fora do paraíso, sem roupa em plena Conde da Boa Vista meio dia de sol rachando!

A falta de intimidade é o fim das relações. O que dizer? O que fazer? Pra onde vou? Ilha de Lost dos relacionamentos, sem passagem de volta, fera. E se ache viu? Complicação pra mais de metro nesse mundo de meu Deus.

É como o primeiro dia de trabalho que a gente não sabe bem onde colocar as mãos. Dá preguiça só de pensar em conhecer a figurinha premiada do pacote de ruflles sabor salsa e cebola. Cebola? Nem pensar. Que dirá alho, nem bugalhos minha cumadê.

O perfume tem que ter a dosagem certa, nem doce, nem cítrico, muito menos amadeirado, algo do tipo lavanda Johnson, saca? Para não ter o perigo do brotinho sair correndo de enjôo pelo seu exagero nas gotas de esperança.

E o que escolher pra jantar? É bom estar ciente se o macho alpha tem essas frescuras da pós-modernidade que promete vida longa, algo do tipo lactovegetariano e essas coisinhas verdes que nos deparamos por ai. Se rolar e não for sua praia gata, melhor não insistir, você terá dor de cabeça mais pra frente e remédio homeopático não vai funcionar, quem avisa amiga é.

Cama. Lascou. Essa parte sem intimidade é o fim. Nem tanto pelo ziriguidum, mas acordar ao lado de um carinha que você não tem a menor liberdade é tarefa para corajosas. Quando dormimos todas as nossas armas baixam guarda. Hálito das incertezas do amanhã de manhã. Toda aquela super produção do dia anterior, make up ultra potente, tubinho preto, salto 20, não vão esconder o seu cabelo assanhado e a cara amassada da manhã seguinte minha cara Audrey Hepburn. Nem vão disfarçar aquela remela preta de lápis borrado. E se você caprichou no rímel pode ter certeza que a figura vai pensar que dormiu com uma ursa panda. Se garanta viu?

E o que falar? Vixi Maria. Tem que ter a habilidade de um orador de formatura pra dosar as palavras desse português ruim, nessa ocasiões melhor beber com moderação. É que a censura é inversamente proporcional ao teor alcoólico da noite bem sucedida. Tentar manter o equilíbrio entre o que se quer falar e o que se pode falar não é tarefa fácil, às vezes escapa um "eu amo teu cheiro", e o carinha certamente vai se assustar, como você ama o cheiro do broto legal, se você está conhecendo ele agora minha amiga dona de casa? Tenha calma, vá com um pé no freio e o outro na embreagem que é melhor pros 4, sim pra você, pra ele e pros próximos que virão.

Relações sem intimidade é como saltar de pára quedas, pode ser muito bom, mas tem chance de ser desastroso. Intimidade é o tempero do love story. É um caminho sem volta, sem tarja preta nos olhos do amor. Solteiras do mundo, uni-vos pela intimidade necessária nas relações do dia a dia, mesmo que na manhã seguinte ele seja página virada descartada do seu folhetim.


O Rei já sabia e ensinou:


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

amanhecer além do arco-íris

Um suave ruído da manhã. Suavemente feliz. A dor se transforma na mais bela nota. Orquestrada por si. Uma canção que tem cheiro de jardim. Jasmim vapor. Cor de sol quando nasce.

Amanhecer. Quando o sol acorda para mais um dia. Não qualquer dia. Num belo dia. Um belo dia foi e não é mais. Um novo belo dia.

Puxe a cadeira e entre. A casa é sua. E minha também. A casa é nossa. Terraço para a vida, com rede preguiçosa.

Tem som de chuva quando cai. Chuva não, é sol. Chuva e sol. Casamento de espanhol? Não, não. Tem som de felicidade. Aquela suave, lembra? Tem som de felicidade com chuva e sol.

Arco-íris. Um pote de ouro do lado de lá. Viu? Eu vi. Seja bem vindo 2011.


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A crença

Saiu de lá com fé. Com muita fé em si mesma. No som do carro Bob Dylan a lhe acompanhar. Nos dias em que os pensamentos ensurdecem, ela aumenta o som para deixar a música sobrepor a sua dor.

Era curiosa a sua insistência em escutar "Don't think twice, it's all right " do seu mestre Dylan, mas precisava saborear cada trecho como se seu pensamento ainda não tivesse decodificado a mensagem daquela música.

Naquele dia, justamente ali, entendeu. Os seus caminhos não se cruzavam mais no infinito. "Não pense duas vezes está tudo bem" repetia em voz alta, naquela auto doutrinação.

Chorou. Um choro calado, quase consciencioso. Não chorava mais pelo desfecho das suas histórias. Chorava por si mesma e pelo tempo que ainda levava para entender como funcionavam as coisas do coração.

Apertou o volante e suplicou para não desacreditar no amor. Ela já não acreditava mais. Os seus sonhos haviam morrido ali naquele ponto final. Restava enterrá-los. Se permitiu em velar em silêncio, naquele luto solitário.

Sim, havia entregue o seu coração, mas sua alma jamais poderia oferecer. Um dia já tinha aprendido que a sua felicidade não podia ser entregue a ninguém. Mesmo assim o fez e mais uma vez se frustrou. Hoje era ela quem cuidava da idéia que ainda lhe restava por felicidade.

Algo de muito importante havia sido subtraído da sua essência. Decidiu buscar novamente. Era muito decidida. Não queria perder as esperanças, até desesperar. E foi.

Foi embora, não olhou para trás. Olhar pra trás representa insegurança. Não, definitivamente não estava insegura. A liberdade causava-lhe medo, mas queria essencialmente ser livre. E buscou. E está conseguindo. Mas ainda chora para limpar tudo o que resta daquele romance vivido por si só.


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

a saga da mulher solteira - parte III

Também faz parte da saga da mulher solteira a famosa e maravilhosa dor de cotovelo. São momentos épicos, quase um ode à dor. Um ritual sagrado de culto à saudade. São momentos em que as lembranças chegam em avalanche e a pessoa degusta com prazer.

Tem que ter trilha sonora, claro. E quanto mais deprê mais o momento fica triunfal. Waldick Soriano sempre é boa companhia das dores dos desamores. Torturando esse ser que te adora, vamos desfrutando do nosso momento, só nosso. Acenda um cigarro e beba mais um gole. Momentos como esses são intensos e passam rápido.

Pelo direito nobre de roer. Roa ratinha solteira, o rei de Roma te deixou na sarjeta da solidão. No melhor estilo brega, aumente o som e viva a sua dor de cotovelo. Que mal faz uma roedeira? E quem nunca roeu que atire o primeiro copo.

Nelson Gonçalves que o diga. Mestre em cotovelos roxos ele vivia a dor com a beleza de um amante. Corria pra um botequim, cantava as mágoas de um caboclo solitário no regresso à boemia. Tudo na mais perfeita classe.

Mas seu mundo não caiu cara Maysa contemporânea, se avexe não cumadre, que a tampa da sua frigideira uma hora aparece. Mesmo que furada, um cacareco, é a sua tampa, do seu número, vai te servir muito bem.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

impaciência

Falta paciência. Há que se enfrentar tudo de novo. Necessário de certo, numa imensidão de tantas outras necessidades. Amadurecer. Amadurecimento à fórceps, nas quedas que a vida presenteia como quem tenta insistentemente ensinar com a dor.

Aquela estranheza de quem passou um tempo no escuro e a vista ainda está se acostumando com a claridade. Ardência. Incomodo. O novo assusta. É enxergar a vida de um novo prisma, mesmo sem compreender ao certo o que se passa.

Dançar conforme a música, dizia o velho adágio. Mudanças de ritmos por rotação de segundo. Tontura. Vertígio. Voilà a vida não espera.





quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

a cachaça nossa de cada dia

Perdoai as minhas cachaças. Assim como o fígado ofendido. Sempre me deixei cair em tentação. Mas livrai-me de toda a ressaca. Amém.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

a saga da mulher solteira - parte II


Uma das coisas mais deprimentes que a solteirice nos proporciona, minhas cumadres, é a tal da cantada mau sucedida. Aquelas que fazem a gente pensar que merecia um illustrator na edição do texto do bonitão. Incrivelmente ruins, nos remete a mais uma dúvida de tantas que o estado civil solteira nos proporciona: dar aquele fora que vem na ponta da língua ou respirar fundo e fingir que não é com você?

São tantas bizarrices que os filhos de Adão atiram julgando ser nossos ouvidos verdadeiros pinicos da vovó, que estou montando um glossário, digno de diário de campo de uma antropóloga que pretende fazer uma observação participante para análise etnográfica. Começo hoje um ensaio das três piores que escutei nos últimos tempos.

Cantada Djavan - Aquela que o cara pensa que está impressionando mas na verdade é um grande mico.
De madrugada eu já pagava a conta quando escutei:
- Solteira?
- Sim, mas fechada pra balanço.
- Eu posso ser o peso da sua balança!
Consideração 1 : de onde ele tirou que eu havia falado balança e não balanço?
Consideração 2: Presunçoso não?

Cantada Papagaio de Pirata - Aquela que pega carona numa determinada situação. Essa acontece bastante com mocinhas fumantes e sempre tem o álibi: me empresta teu isqueiro?
Foi assim que aconteceu numa noite em que eu e mais duas amigas bebíamos e fumávamos, não necessariamente nessa mesma ordem, com fortes intercaladas de boas risadas. Entre uma e outra baforada, o carinha disparou:
- Eu já pedi tanto o teu isqueiro que é melhor eu sentar aqui.
- De jeito nenhum querido.
- Jura por Deus?
- Juro por Deus, Maomé e Jeová.
Consideração Única: Ele mereceu o fora que levou.

Cantada Jonny Bravo - Quando o macho alpha se sente o gostosão, imprescindível, único, e entre tantos adjetivos é um grande paspalhão. Essa acontece quase sempre com metrossexuais, é incrível, mas é fato.
Eu estava dançando sozinha, quando me aparece aquele metro e me diz:
- Você merece alguém bonito como eu.
- ?????
Consideração Única: Fingi que não era comigo.

Dá pra tu? Aconteceu, virou manchete.